Agricultura familiar em prol da sustentabilidade

_relatorio_projetosma_005

(foto: Maíra Bombachini/GVces)

Na agricultura, o produtor de pequeno porte tem uma relevância pouco comum em outros setores econômicos. Isso porque essa categoria é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o Brasil, e ocupa papel decisivo para o abastecimento de produtos como a mandioca (87%), feijão (70%), carne suína (59%), leite (58%), carne de aves (50%) e milho (46%), segundo dados do governo federal. De acordo com o Censo Agropecuário Brasileiro (2006), 84% dos estabelecimentos agropecuários do país são de agricultura familiar, com quase 4,4 milhões de estabelecimentos, ocupando cerca de 24,3% da área ocupada pela atividade do setor no Brasil.

Este panorama é desafiador para a agenda da sustentabilidade na agricultura: se quisermos falar sobre práticas mais sustentáveis na atividade agrícola, que gerem produtos com menos impactos socioambientais, precisamos dialogar diretamente com os agricultores familiares e com os pequenos produtores rurais – atores que nem sempre encontram apoio em políticas públicas, capacitação técnica e crédito para subsistir em sua própria atividade.

O fortalecimento da agricultura familiar é fundamental para que tenhamos uma agricultura mais sustentável e de baixo carbono no Brasil. Por isso, o GVces tem buscado o diálogo com estes atores, com o objetivo de apoiá-los não apenas em suas práticas internas de gestão, mas também se preocupando com a viabilidade econômica e o desenvolvimento desses pequenos empreendimentos rurais, tão vitais para um setor igualmente vital da economia brasileira.


VIABILIDADE ECONÔMICA DE UMA AGRICULTURA FAMILIAR SUSTENTÁVEL

Não é apenas nas empresas que a sustentabilidade emerge como um diferencial para os negócios. Para os pequenos agricultores, os agricultores familiares e as cooperativas, oferecer produtos mais sustentáveis pode servir como uma ponte importante para consumidores que buscam cada vez mais por este tipo de produto.

No entanto, apesar da importância econômica da produção agrícola familiar, muitas vezes, devido à falta de conhecimento e adequação de infraestruturas e processos, os pequenos produtores passam por dificuldades de organização e de gestão, bem como de armazenamento e distribuição de seus produtos.

Nesse contexto, as Secretarias de Estado do Meio Ambiente e da Agricultura e Abastecimento de São Paulo se uniram no Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS), com o objetivo de aprimorar a competitividade da produção advinda da agricultura familiar no Estado. Foram selecionados cinco subprojetos ambientais propostos por organizações de produtores rurais familiares que visam a diversificação econômica, a geração de renda e inclusão social dos pequenos produtores, ao mesmo tempo em que fazem uso sustentável e contribuem para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos.

Equipe do GVces visitou os subprojetos para fazer levantamento (foto: Maíra Bombachini/GVces)

Equipe do GVces acompanhou os cinco subprojetos selecionados com visitas a campo (foto: Maíra Bombachini/GVces)

Este acompanhamento contou com etapas de preparação e alinhamento da estratégia de atuação dos subprojetos, diagnóstico em campo, capacitação das organizações, além de encontros e eventos com a participação de representantes dos subprojetos, do GVces e das Secretarias Estaduais envolvidas no PDRS. A partir deste esforço de acompanhamento individual dos subprojetos, a equipe do GVces pôde avançar na modelagem para análise de viabilidade econômica de cada um deles. Ainda em 2014, o GVces foi contratado via edital para apoiar a implantação de cinco desses subprojetos ambientais, com foco na sua viabilização econômica. Para tanto, a equipe do GVces desenvolveu um arquétipo representando uma estrutura geral de negócios, cujo conteúdo e abordagem foram adaptados à realidade de cada subprojeto. Esse modelo se baseia num plano de negócios, com proposta de valor e avaliação das dimensões de mercado, produção e finanças dos subprojetos.

A participação do GVces neste projeto foi concluída em setembro de 2015, com a entrega das análises finais sobre os subprojetos ambientais. Dentre as principais conclusões deste trabalho, estão a relevância do PDRS para estruturação física e melhoria de gestão nas organizações familiares, a importância do incremento de renda (ainda que marginal, em alguns casos) que o projeto trouxe para organizações menos estruturadas, além da importância do diferencial de inovação proposto pelo projeto, que trouxe maior engajamento por parte dos produtores envolvidos.

“Gostei muito da capacidade da equipe do GVces em conseguir atingir esse público tão diferenciado [quilombolas], passando conteúdo e ferramentas de forma simples e eficiente. Muita flexibilidade e capacidade de se adequar à realidade de cada projeto. Os principais ganhos ao subprojeto com a participação do GVces foi o aumento da capacidade da organização e gestores de entender a gestão financeira, além da melhora da percepção e gestão do projeto enquanto negócio.”
Marta Organo Negrão, especialista ambiental e gestora do subprojeto ambiental PDRS

(foto: Maíra Bombachini/GVces)

Oficina promovida pela equipe do GVces em uma das cooperativas envolvidas no PDRS (foto: Maíra Bombachini/GVces)


CADEIA DE FORNECIMENTO DE ALIMENTOS NOS CENTROS URBANOS

farmers-market-1329008_1280O trabalho com produtores rurais familiares abriu ao GVces uma nova agenda de atuação, que vem sendo aprofundada desde o final de 2015 com o projeto Bota Na Mesa. Nessa nova parceria com o Citi e patrocínio da Citi Foundation, o objetivo é mobilizar a cadeia de fornecimento de alimentos em grandes centros urbanos, promovendo a articulação de uma rede que favoreça a inclusão de pequenos agricultores familiares, o comércio justo, a conservação ambiental e a segurança alimentar.

O trabalho teve início no 2º semestre de 2015, com um levantamento feito pelo GVces de informações acerca do contexto no qual estão inseridos os pequenos produtores agrícolas do Estado de São Paulo. Constatou-se que a região é a principal produtora de hortaliças e frutas do Brasil, e muitos de seus produtores atuam em micros propriedades localizadas no entorno da capital paulista. Também foi constatado que parte significativa desses produtores encontra-se em situação de vulnerabilidade social e tem dificuldades para vender sua produção a preços justos.

Os elementos-chave identificados nas visitas serão insumos para o trabalho de formação junto a essas organizações, que será desenvolvido ao longo de 2016.Assim, o projeto avançou na definição de seu público-alvo e conduziu um processo de seleção de organizações para participar do primeiro ciclo de trabalho do projeto, a ser realizado em 2016. Este processo envolveu um mapeamento, contatos e visitas às sedes das organizações (cooperativas e associações) e a propriedades de alguns produtores que compõem essas organizações. Buscamos compreender mais a fundo o funcionamento destas organizações e os principais desafios que enfrentam tanto no âmbito das práticas internas de gestão quanto dos desafios para a comercialização dos produtos. Ao final deste processo, foram selecionadas 10 cooperativas e associações, localizadas nos municípios de São Paulo, Valinhos, Mogi das Cruzes, Santa Isabel, Iperó, São Miguel Arcanjo e Ibiúna.

“A nossa ideia é levar o resultado do nosso trabalho direto aos produtores para contribuir com o diálogo dessa rede, que já se articula há bastante tempo, além de pensar conjuntamente no mapa que vem sendo traçado e novas oportunidades de atuação conjunta entre a rede e a FGV.”
Maurício Jerozolimski, gestor do projeto “Bota na Mesa” e pesquisador do GVces


BASES PARA A FORMAÇÃO DE JOVENS AGRICULTORES FAMILIARES

pexels-photo (2)De acordo com o Censo Demográfico de 2010, oito milhões de jovens brasileiros vivem em áreas rurais – ou seja, um em cada seis jovens do Brasil dependem diretamente da atividade rural para sua subsistência e desenvolvimento. São camponeses, agricultores, familiares, acampados e assentados da reforma agrária, trabalhadores rurais, e de povos e comunidades tradicionais.

Esse contingente representa o futuro da agricultura familiar no Brasil, que nem sempre é observado com a atenção que ele merece. A falta de apoio por parte das políticas públicas acaba reverberando em baixas perspectivas para os jovens que vivem no campo, o que os incentiva a abandonar a atividade rural e ir para as cidades – um trajeto problemático em dois sentidos: por um lado, esvazia a produção rural de pequeno porte, importante para a produção de alimentos; por outro, aumenta a pressão por comida nas cidades, que acaba não sendo absorvida pelo meio rural esvaziado.

Assim, para fortalecer a agricultura familiar no Brasil, um passo fundamental é fortalecer a juventude que está inserida nesta realidade socioeconômica. Neste contexto, uma iniciativa importante do GVces em 2015 foi o desenvolvimento de um Estudo de Competências para o Jovem Agricultor Familiar. Fruto de uma parceria com a Coca-Cola Brasil, este estudo teve como objetivo sistematizar conhecimentos e propor 5 competências que servirão de base para a elaboração futura de um programa de formação que busque despertar a autonomia e o protagonismo dos jovens agricultores familiares.

Para tanto, a equipe do GVces realizou uma análise do contexto no qual essa juventude vive no campo brasileiro – o estado da agricultura familiar e as principais características do jovem agricultor familiar- e desenvolveu percepções sobre o perfil deste jovem agricultor familiar. A partir destes insumos, os pesquisadores avançaram na definição de três dimensões de formação – autoformação (relação consigo mesmo), heteroformação (relação com o mercado e o próprio negócio), e ecoformação (relação com o território) – e cinco competências associadas a elas a serem desenvolvidas no futuro programa de formação – autonomia (autoformação); relação com o mercado, gestão de negócios, e produção sustentável (heteroformação); e visão integrada (ecoformação).

O relatório final foi publicado no começo de 2016.


PARA O FUTURO: AGRICULTURA FAMILIAR E CADEIAS DE ABASTECIMENTO MAIS SUSTENTÁVEIS

Uma frente importante de trabalho do GVces em 2016 no tema do empreendedorismo vem com o projeto Bota Na Mesa, realizando oficinas de coformação com as organizações de agricultores familiares participantes da iniciativa. Além disso, estaremos dedicados à mobilização da rede de atores da cadeia, a fim de compartilhar o contexto no qual estamos trabalhando junto aos produtores rurais familiares do projeto e discutir possíveis caminhos que a cadeia como um todo pode traçar para endereçar os desafios do setor. E as atividades do ano incluem ainda oficinas de formação com a rede de supermercados St. Marché, empresa-âncora do projeto, para entender os processos de empresas varejistas e buscar pontos de melhoria promover melhores práticas de relacionamento com pequenos fornecedores.

Nossa expectativa é que, ao final do primeiro ciclo do projeto Bota na Mesa, que termina em julho de 2016, as organizações de produtores rurais do projeto estarão melhor preparadas e com mais informações para acessar mercados e terão elaborado um plano de ação para isso. No segundo semestre do ano, já no segundo ciclo de atividades do projeto, pretendemos fazer um acompanhamento da implementação destes planos de ação, além de ampliar a articulação e o diálogo com as organizações de setor público, privado e da sociedade civil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *