Água: uma agenda para o presente e o futuro

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“Nós esquecemos que o ciclo da água e o ciclo da vida são a mesma coisa”, disse certa vez o oceanógrafo francês Jacques Yves Cousteau. A forte crise hídrica que o Sudeste brasileiro sofreu nos anos de 2014 e 2015 certamente deixou esse esquecimento evidente: mesmo com uma das maiores reservas de água doce do mundo, que representa quase 12% do total global, milhões de brasileiros ainda sofrem com os efeitos da prolongada estiagem que reduziu drasticamente os níveis das reservas hídricas.

A escassez nos lembrou que, como todo recurso natural, a água é finita. Sem uma gestão inteligente e sustentável desse recurso, que abranja desde ações de planejamento e melhoria da infraestrutura hídrica até a conscientização dos consumidores finais, viveremos sob constante ameaça de colapso do abastecimento de água. Esse cenário deve ser ainda mais crítico nas próximas décadas, com as mudanças do clima afetando o regime de chuvas em todo o país.

No contexto dessa crise, o GVces procurou olhar para a escassez hídrica a partir de diferentes perspectivas, desde a gestão hídrica por empresas e governos, passando pela preservação da água enquanto recurso natural, até as ações para garantir o acesso público à água em cenários climáticos futuros mais adversos.


REFLEXÕES SOBRE A CRISE HÍDRICA

“(…) você tem de entender que, são tantas as necessidades, que o governo precisa ser muito corajoso para deixar de fazer uma coisa de curto prazo e fazer outra de longo prazo. Imagina que você está na posição de um governador, mesmo que seja bem-intencionado. O tempo todo tem emergência. Imagina dizer: ‘em vez de fazer escolas, hospitais, vou fazer um sistema de água para daqui a 20 anos em São Paulo, porque tenho essa visão de longo prazo’. Esse político não será reeleito, será duramente criticado. Há uma dificuldade do ser humano em lidar com o longo prazo.”
Fernando Reinach, investidor e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, em entrevista para a edição 93 (fev/15) da Revista Página22

(foto: Bruno Bernardes/Página22)

(foto: Bruno Bernardes/Página22)

Um dos temas mais relevantes nos últimos anos no Brasil foi a estiagem prolongada que atingiu o Sudeste nos verões de 2014 e 2015. O fenômeno afetou gravemente a disponibilidade e o fornecimento de água potável em São Paulo, o estado brasileiro mais populoso, e também impactou a produção de energia hidrelétrica em todo o país.

Esse desafio levantou questões profundas sobre a forma como o poder público, as empresas e os cidadãos em geral lidam com a água. Do ponto de vista público, tornaram-se evidentes problemas sérios na gestão dos recursos hídricos, refletidos numa infraestrutura antiquada e em tomadas de decisão que não conseguiram lidar com o crescimento vertiginoso das cidades brasileiras nos últimos 65 anos. Do ponto de vista empresarial, a estiagem desafiou setores inteiros da economia, desde aqueles que consomem água massivamente em seu processo produtivo até os que dependem das hidrovias do Sudeste para transportar sua produção ou seus insumos. E do ponto de vista da sociedade, ficou claro que as práticas de consumo da maior parte da população estressam ainda mais a disponibilidade desse recurso.

Em fevereiro de 2015, no auge da crise hídrica no Sudeste, a Revista Página22 trouxe uma edição dedicada a olhar para esse problema (ed. 93) a partir de uma visão sistêmica, trazendo reflexões sobre questões como o desafio do abastecimento de água nas grandes cidades, a falta de saneamento básico na maior parte do país, os efeitos do desmatamento na Amazônia sobre o regime de chuvas no Sudeste e Sul do Brasil, além dos possíveis impactos negativos que as mudanças do clima podem trazer para o abastecimento de água no futuro.

Bde

Bode na Sala

Além de abordar o panorama sobre a crise hídrica na edição impressa, a Página22 trouxe esse problema para o debate público com a organização do segundo evento da série Bode na Sala, realizado no Auditório Itaú em maio de 2015. Com o intuito de chamar atenção para o diálogo entre diferentes setores no enfrentamento de um problema comum, o debate reuniu representantes do poder público, da academia, da iniciativa privada e da sociedade civil para conversar sobre os caminhos para uma governança hídrica mais efetiva e democrática.

O evento contou com a participação de Fabio Feldmann (consultor e ex-secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo), Flavio Bagnara Jr (diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da AES Tietê), Marussia Whately (coordenadora da Aliança pela Água), Paulo Henrique Pereira (secretário municipal do Meio Ambiente de Extrema/MG), e Paulo Nobre (coordenador da Rede Clima e pesquisador do CPTEC/Inpe). E ainda abriu espaço para rodas de conversas entre os especialistas e o público presente para aprofundamento do tema e inclusão de pontos de vista dos cidadãos e de profissionais de diferentes setores.

Debate "Bode na Sala" sobre a crise hídrica (foto: Yantra/GVces)

Debate “Bode na Sala” sobre a crise hídrica (foto: Yantra/GVces)

“Infelizmente, temos uma enorme dificuldade de colocar esses temas [como a crise hídrica] no país, porque a sociedade brasileira ainda tem uma noção equivocada de que nossas questões não estão no presente, e sim no futuro.”
Fabio Feldmann, consultor e ex-secretário estadual do Meio Ambiente de SP, durante debate do ciclo “Bode na Sala” (maio/2015)

“Vários indicadores mostram que não estamos preparados para lidar com um mundo com menos água, de políticas públicas, de empresas e de sociedade.”
Marussia Whately, coordenadora da Aliança pela Água, durante debate do ciclo “Bode na Sala” (maio/2015)


VALORAÇÃO ECONÔMICA E CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS

A crise hídrica evidenciou que não há mais espaço para que as empresas ignorem suas dependências e seus impactos sobre o meio ambiente. As empresas que não se conscientizam sobre essa relação tornam-se extremamente vulneráveis em momentos críticos. A constatação é clara: precisamos olhar para o capital natural e para o fluxo de benefícios que este provê para o bem-estar humano, ou seja, os serviços ecossistêmicos.

TeSE_Regular (1)Para as empresas, a crise hídrica reforçou a importância dos serviços ecossistêmicos, e o trabalho desenvolvido pela iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) ganhou ainda mais pertinência nesse cenário. Criada pelo GVces em 2013, a TeSE propõe auxiliar as empresas no esforço de entender e dimensionar o capital natural na economia e na sociedade, desenvolvendo estratégias e ferramentas para a gestão empresarial de dependências, impactos, riscos e oportunidades relacionadas aos serviços ecossistêmicos.

Para a TeSE, boa parte dos principais desafios ambientais da atualidade está relacionada a problemas na manutenção dos ecossistemas, que acarretam em, por exemplo, redução da provisão de água para consumo, o incremento do efeito estufa e a redução da biodiversidade. Considerando que o uso dos ecossistemas impõe riscos, mas também pode ser uma oportunidade de negócios para as organizações, é importante que as atividades econômicas levem em conta o valor desses serviços, dos quais se beneficiam e sobre os quais muitas vezes exercem impactos intensos.

Uma das frentes de atuação da TeSE em 2015 foi a valoração econômica de serviços de provisão - entre eles, água (foto: Milene Fukuda/GVces)

Uma das frentes de atuação da TeSE em 2015 foi a valoração econômica de serviços de provisão – entre eles, água (foto: Milene Fukuda/GVces)

Uma das frentes de trabalho da TeSE em 2015 foi a valoração econômica de serviços ecossistêmicos de provisão, que são os serviços resultantes de processos ecológicos (ou funções ecológicas) que produzem bens tangíveis e materiais que são úteis, de alguma forma, e que também geram bens – como a água.

Assim, a TeSE realizou um encontro de grupo de trabalho em 2015 para apresentar e discutir diretrizes e métodos gerais de valoração desses serviços de provisão, para que as empresas pudessem entender como isso poderia ser aplicado a sua realidade operacional.

Além da co-criação do método de valoração de serviços ecossistêmicos de provisão, foram desenvolvidos com empresas membros três projetos de valoração da provisão de água, um de regulação da qualidade da água, e um de regulação da assimilação de efluentes líquidos métodos estes que tem o objetivo especifico de dimensionar a importância de diferentes aspectos do tema água para as empresas.

A Revista Página22 também olhou para a questão dos serviços ecossistêmicos – entre eles, a água – na segunda edição da publicação eletrônica P22_ON, publicada em outubro de 2015.

“Como uma empresa que depende de água, por exemplo, saberá se vale mais investir em recuperação de florestas na área de manancial do que construir reservatórios, avaliando a necessidade de abastecimento da população a curto, a médio e a longo prazo? Para o agente econômico (a empresa ou o poder público) escolher a alternativa mais efetiva é preciso recorrer a ferramentas de valoração.”
Trecho da matéria Quando ecologia e economia falam a mesma língua, publicada na edição sobre Serviços Ecossistêmicos da publicação P22_ON (outubro/2015)


PARA O FUTURO: CONTRIBUIÇÕES PARA UMA GESTÃO SUSTENTÁVEL DOS RECURSOS HÍDRICOS

“Estamos fazendo um movimento ainda mais intenso de integração dos temas de trabalho das Iniciativas Empresariais do GVces, e de integração com o conjunto dos nossos programas e projetos, com ganho de eficiência e sinergia. E, em 2016, essa entrega se dará em torno de um tema central para o Brasil – recursos hídricos.”
Paulo Branco, vice coordenador do GVces, durante o 3º Fórum das Iniciativas Empresariais do GVces (novembro/2015)

O verão 2015/2016 superou os índices históricos de chuva, o que resultou numa recuperação significativa nos níveis dos reservatórios de água no Sudeste brasileiro. Para muitos, é tentador olhar para esse cenário positivo e dizer que a crise hídrica acabou, mas a experiência dos últimos anos evidencia que precisamos de mudanças estruturais, da captação nos reservatórios ao tratamento da água utilizada. No contexto da mudança do clima, podemos viver situações ainda mais drásticas no futuro, e precisamos estar minimamente preparados para que o bem-estar e a dignidade de nossos cidadãos não sejam colocadas em risco pela falta de água potável.

Em um cenário tão difícil, como buscar soluções para esse problema estratégico, a partir da sustentabilidade? Para o GVces, a complexidade dessa realidade crítica somente pode ser superada se encontrarmos um caminho construtivo e integrador para encaminhar soluções efetivas. Ou seja, é na atuação em rede que temos as melhores condições para endereçar um desafio em sua amplitude, considerando toda a sua complexidade.

Esse é o princípio que fundamenta a atuação das Iniciativas Empresariais (IEs) do GVces – Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), Projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), e Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) –, um conjunto de projetos que procuram capacitar, engajar e articular as empresas em torno de agendas estratégicas para o futuro sustentável do Brasil.

Em 2016, as Iniciativas Empresariais do GVces voltam suas atenções para a gestão dos recursos hídricos. Para nós, esse tema tem o potencial de reunir as experiências e o conhecimento das cinco iniciativas para a construção de soluções em rede, olhando para questões como a pegada hídrica (CiViA), adaptação às mudanças do clima (EPC), valoração de serviços ecossistêmicos relacionados a recursos hídricos (TeSE), aspectos de inovação na gestão desses recursos (ISCV), e a governança dos territórios no que diz respeito à água (ID Local).

Além de encontros temáticos para tratar de questões referentes à gestão sustentável dos recursos hídricos, as Iniciativas Empresariais também atuarão conjuntamente na realização da “Jornada Empresarial Terceira Margem”, uma viagem de campo que possibilita às empresas membros uma experiência da realidade local que integra diferentes desafios da sustentabilidade, e selecionarão casos inovadores nesse tema, que serão convidados a apresentar suas soluções em gestão de recursos hídricos.

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