Formação e Comunicação para a Sustentabilidade

Turma do FIS 10 durante visita de campo (foto: Milene Fukuda/GVces)

Turma do FIS 10 durante visita de campo (foto: Milene Fukuda/GVces)

Da mesma forma que na economia e na política, a sustentabilidade desafia as fronteiras tradicionais do pensamento. A categorização sistemática da realidade em “gavetas” compartimentadas não faz mais sentido em um mundo tomado por problemas tão profundos e complexos que não podem ser solucionados de uma única forma e/por um único caminho.

Isso exige mudanças fundamentais no modo como entendemos o conhecimento e o processo de desenvolvimento cognitivo e intelectual de cada pessoa, de forma a possibilitar a emergência de um sujeito consciente de si próprio e da realidade que o cerca, preparado para tomar decisões que podem gerar impacto não apenas para ele mesmo, mas para os seus semelhantes.

Para o GVces, as agendas da comunicação e da formação talvez sejam as mais desafiadoras dentro do nosso campo de atuação. Não é à toa que elas são uma frente constante e estratégica para o nosso trabalho.


FORMAÇÃO DE NOVAS LIDERANÇAS

Política, economia, questões sociais, meio ambiente…. No fundo de todos os desafios pertinentes a estas questões, temos um ator fundamental em comum: o Homem. Se a sustentabilidade propõe mudanças profundas na natureza das questões políticas, econômicas, sociais e ambientais, uma mudança crucial para o sucesso das demais está no próprio ser humano.

Um espaço propício para a promoção desta mudança é a educação. Para que a sustentabilidade seja incorporada plenamente em nossa sociedade, é importante pensar em uma nova concepção de proposta formativa educacional, que incorpore os princípios da sustentabilidade e da inovação no processo de aprendizado.

Um movimento no ensino superior no Brasil e no mundo começa a tomar corpo, e várias iniciativas que questionam o modelo de formação tradicional de nossos jovens ganham destaque. Desde instituições com renome global, como as Universidades de Harvard e Stanford e o Massachussets Institute of Technology(MIT), até aquelas com propostas mais alternativas de trabalho, como a Schumacher College, entre outras – todas estão na busca de modelos inovadores de educação que resultem em uma nova geração de líderes para a sociedade.

FIS_RegularO projeto por trás da disciplina eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS) se insere nesta busca. Criado em 2009 na FGV-EAESP, sob orientação e coordenação do GVces, o FIS propõe superar os limites tradicionais de uma simples disciplina de graduação. Mais do que transmitir conhecimento ou conteúdo, o FIS tem como proposta desenvolver um processo que busque promover as condições necessárias para fazer emergir um sujeito mais consciente de si e de sua interdependência e complexidade, e mais ativo e autônomo na sua relação consigo mesmo, com os outros e com a realidade.

No centro destas condições está uma mudança fundamental de paradigma: da fragmentação para a integração. De um modelo disciplinar fragmentado e unidimensional, insuficiente para lidar com a complexidade da realidade, para um modelo inter e transdisciplinar, que integre teoria e prática; público e privado; academia, empresa e sociedade; indivíduo, coletividade, meio ambiente e futuras gerações; professor e alunos; razão formal, experiencial e sensível.

Voltado para os alunos de graduação de Administração de Empresas, Administração Pública, Economia e de Direito da FGV de São Paulo, o FIS desenvolve dois projetos integrados e simultâneos junto com suas turmas: o Projeto Referência, um desafio real no âmbito da sustentabilidade, que possibilita aos alunos serem protagonistas em questões relevantes da nossa época; e o Projeto de Si Mesmo, que propicia a eles um maior contato consigo mesmo e a descoberta de novas dimensões de sua interioridade, visando a emergência de sujeitos mais autônomos e conscientes.

Em 2015, o FIS convidou seus alunos – os fisers – a olhar para desafios internos e externos – desde a realidade da própria FGV e do modelo de formação que ela adota e replica até os espaços públicos nas grandes cidades brasileiras.

(foto: Milene Fukuda/GVces)

(foto: Milene Fukuda/GVces)

logo-fis-inspiraNo 1º semestre, os fisers da turma inSPira (FIS 10) foram desafiados a criar (ou potencializar) uma intervenção em espaço público na cidade de São Paulo, que refletisse o conceito de “cidades para todos”. Além disso, foi proposto que os alunos fizessem uma publicação sistematizando esse processo com os métodos, os atores envolvidos, os resultados potenciais e alcançados, lições aprendidas, entre outros.

Para tanto, a turma fez viagens de campo nas cidades de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital fluminense, os alunos visitaram o Morro do Vidigal (Rio de Janeiro), onde conheceram experiências de reflorestamento e agricultura urbana. Já em SP, a turma visitou experiências de intervenção na capital paulista nos bairros do Bom Retiro, Pinheiros e Alto de Pinheiros. Finalmente, em Pernambuco, os fisers visitaram experiências no rio Capibaribe e no Cais Estelita.

(foto: Milene Fukuda/GVces)

(foto: Milene Fukuda/GVces)

A partir dessas visitas, a turma iniciou o planejamento para as intervenções, com a realização de uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo na plataforma online Catarse. No começo de junho, a turma organizou intervenções públicas em diversos pontos de São Paulo.

logo-fis-transformarJá no 2º semestre, o trabalho com a turma TransFormar (FIS 11) foi um tipo de “meta FIS”: o desafio foi promover experiências que mobilizassem, convidassem e inspirassem os envolvidos com educação superior a explorar a aplicação de novos modelos, princípios e perspectivas de formação para as escolas de administração.

A partir deste Projeto Referência, os fisers foram desafiados a olhar para a sua própria estrutura formativa na FGV, atentando para modelos alternativos e outras experiências de educação e aprendizado dentro e fora do ambiente acadêmico.

(foto: Milene Fukuda/GVces)

(foto: Milene Fukuda/GVces)

Para tanto, os fisers foram conhecer a experiência da Universidade Livre Pampédia, uma universidade que por opção não está vinculada ao MEC. Durante a viagem de campo, os alunos participaram do FICOO – Festival Internacional da Cooperação, e em seguida a turma se dividiu em três grupos para explorar diferentes experiências em educação. O primeiro grupo foi para Viçosa (MG), para conhecer o projeto Gaia da Universidade Federal de Viçosa. O segundo grupo foi a Salvador conhecer a experiência do Bairro Escola Rio Vermelho. O último foi para Florianópolis, conhecer iniciativas de Transdisciplinaridade da Universidade Federal de Santa Catarina e de permacultura.

Como produto final os alunos promoveram uma experiência com os participantes da apresentação final, mostrando, a partir da trajetória do herói, a experiência pela qual eles haviam passado no processo formativo do FIS.

(foto: Milene Fukuda/GVces)

(foto: Milene Fukuda/GVces)

Em adição às atividades no âmbito dos cursos de graduação na FGV, a equipe do GVces para o FIS também trabalhou em 2015 na sistematização de um Guia de Fundamentos e Práticas, um documento que traz as inspirações, as experiências e os aprendizados de seis anos de trabalho com o FIS, além de destacar as possibilidades de aplicação da metodologia de coformação desenvolvida para disciplina em outros espaços, públicos e contextos.

O trabalho do FIS também foi destacado durante participação da equipe do FIS no Prototype Camp, um evento promovido pelo professor Otto Scharmer e pelo Presencing Institute no MIT em outubro de 2015.

“Quando penso no processo de transformação que vivi e nas pessoas mágicas que cruzaram meu caminho, meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de orgulho, pela abertura e entrega da minha mente, alma e coração que foram inconscientemente entregues no FIS 10. Hoje, a cada passo que dou na grandiosa e iluminada cidade cinza, me lembro de como aprendi a observar e compreender a definição de uma cidade no FIS 10. Me lembro de como um espaço público gelado pode ser revitalizado com cores e brincadeiras, nas mãos de cidadãos paulistanos. Já em cada reunião profissional ou encontro pessoal, lembro-me da atenção plena e da escuta sensível, aprendizados de ouro que foram esquecidos na loucura desse desenfreio que chamamos de rotina. Em uma palavra: gratidão FIS 10.”
Ana Paula Mofarrej, aluna da turma inSPira (FIS 10)


INFORMAÇÃO PARA O PRESENTE E PARA O FUTURO

LOGO PG22 (1)O debate público é o reflexo do sistema democrático. Se não há espaço para o diálogo de ideias entre divergentes, não há espaço para atores livres e autônomos e, consequentemente, para uma vida plenamente democrática.

Um debate depende de ideias, e as ideias dependem de informação. Se estamos falando sobre sustentabilidade, isso é ainda mais desafiador. Com o intuito de estimular um debate inteligente entre os diversos atores – setor privado, público, sociedade civil organizada, academia e o cidadão comum – o GVces criou há 10 anos a Revista Página22. A publicação é um canal jornalístico que atua como ponte entre a expertise técnica do GVces e a sociedade. Provoca questionamentos, reflexão e aprofundamento das questões fundamentais, sempre de uma forma livre e acessível, com conteúdo compartilhado publicamente mediante licença Creative Commons.

Algumas das capas da Página22 em 2015

Algumas das capas da Página22 em 2015

Em atividade desde 2006, a Página22 tornou-se referência em sustentabilidade no mercado jornalístico brasileiro ao abordar temas estratégicos de forma integrada e inter-relacionar aspectos econômicos, culturais, políticos e ambientais, sempre com um olhar original. O conteúdo produzido pela revista é usado por formuladores de opinião e multiplicadores de informação, além de servir como fonte de conhecimento para profissionais da área de educação e de diversos veículos de comunicação no Brasil.

Em 2015, a Página22 trouxe temas estratégicos para o Brasil e o mundo, como crise hídrica, governança global, inovação tecnológica, cidades para pessoas, economia colaborativa, entre outros.

Além de produzir informação de qualidade, a Página22 também tem o compromisso de desenvolver produtos que facilitem a repercussão dos temas da sustentabilidade para diferentes públicos. Um exemplo disso é a P22_ON, um produto eletrônico criado em 2015 e voltado para a disseminação na sociedade do conhecimento gerado pelos pesquisadores do GVces nas suas diferentes linhas de atuação.

Edição de P22_ON sobre precificação de carbono (julho/2015)

Edição de P22_ON sobre precificação de carbono (julho/2015)

Com publicação bimestral, a P22_ON abordou em seu primeiro ano três importantes temas da sustentabilidade –precificação de carbono, serviços ecossistêmicos, e finanças sustentáveis– sempre com uma linguagem clara, atraente e acessível aos diferentes públicos interessados.

Outro exemplo é a publicação do 1º Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE, editado pelo GVces e pela Página22 no final de 2015 (saiba mais), com o objetivo de divulgar empreendedores com soluções inovadoras e sustentáveis e fortalecer o seu networking, possibilitando-os acessar novos atores e aproveitar novas oportunidades para crescer e ganhar escala.

Além disso, a Página22 deu continuidade em 2015 ao ciclo de debates “Bode na Sala”, que tem como objetivo abrir espaço para conversas construtivas em temas “quentes” da agenda da sustentabilidade no Brasil e no mundo. O 1º debate, realizado em maio, reuniu especialistas e interessados para refletir sobre os desafios da crise hídrica no Sudeste brasileiro (saiba mais) sob a perspectiva de diferentes atores. Já o 2º debate, promovido em novembro, aproveitou o contexto da Conferência do Clima de Paris (COP 21) para discutir as possibilidades da construção de uma economia de baixo carbono em tempos de crise econômica.

Tasso Azevedo (à esquerda) e José Eli da Veiga durante debate "Bode na Sala" sobre economia de baixo carbono, com mediação de Amalia Safatle, editora da Página22 (foto: Milene Fukuda/GVces)

Tasso Azevedo (à esquerda) e José Eli da Veiga durante debate “Bode na Sala” sobre economia de baixo carbono, com mediação de Amalia Safatle, editora da Página22 (foto: Milene Fukuda/GVces)


PARA O FUTURO: CIDADÃOS PARA UM NOVO SÉCULO

Mudar é uma tarefa difícil. Quando falamos em educação, isso é ainda mais complicado, pelos diferentes atores envolvidos e pelo fato de seus resultados emergirem somente no futuro.

Em um mundo de problemas prementes, que parecem demandar soluções rápidas e fáceis num primeiro momento, mudanças da magnitude que a sustentabilidade exige podem parecer custosas em tempo e em recursos. Essa percepção é ilusória, na medida em que boa parte desses problemas que desafiam e ameaçam a própria sobrevivência das sociedades modernas não pode ser resolvida com soluções simples e rápidas. Elas exigem soluções mais amplas, que considerem a teia de relações entre os atores envolvidos e que exijam mudanças profundas no seu comportamento e na sua lógica e estilo de vida. Não serão inovações incrementais que vão nos tirar da grave crise ambiental em que vivemos: precisamos de caminhos e soluções disruptivas.

Mudar é difícil, mas é necessário.Precisamos estar preparados para engendrar a mudança, para testar novas ideias, novos caminhos, novas perspectivas. Por isso, a missão do GVces é expandir continuamente as fronteiras do conhecimento em prol do desenvolvimento sustentável, disseminando informação de qualidade e capacitando os atores de agora e os do futuro para avançar sobre os limites da agenda da sustentabilidade no Brasil.

Em sintonia com esta missão e aproveitando as experiências e os aprendizados com o FIS e com o Master em Gestão de Sustentabilidade, o GVces inicia em 2016 o Mestrado Profissional em Sustentabilidade na FGV-EAESP. Este Mestrado será voltado para profissionais que buscam aprofundamento acadêmico e prático em temas que estão na fronteira do conhecimento nas diversas temáticas da sustentabilidade. Como missão, o Mestrado buscará criar as condições necessárias para emergir uma pessoa mais consciente da sua integralidade como ser humano, da interdependência nas relações com os outros e com o meio ambiente, e da complexidade da realidade em que vivemos.

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