O protagonismo das empresas brasileiras na luta contra a mudança do clima

Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol (foto: Yantra Imagens/GVces)

Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol (foto: Yantra Imagens/GVces)

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pelo Observatório do Clima e pelo Greenpeace Brasil e divulgada em junho de 2015, a mudança do clima já faz parte da agenda de investimento das mil maiores empresas brasileiras. Mais de 80% delas já estão adotando ações de mitigação ou adaptação, e 73% delas acreditam que estas medidas podem resultar em impactos financeiros positivos para os seus negócios.

A mensagem é clara: mudança do clima não é mais um tema “tabu” para o setor privado. Mais do que uma necessidade premente pela realidade cotidiana, as empresas estão atuando na redução de suas emissões e na adaptação de suas operações principalmente porque entendem que o desafio climático traz consigo possibilidades econômicas importantes para os seus negócios.

A evolução recente da atuação corporativa na luta contra a mudança do clima destaca o protagonismo das empresas nesse esforço. O engajamento das empresas é fundamental para que o mundo tenha sucesso tanto no esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa quanto na adaptação de nossas economias e sociedades para os efeitos adversos já irreversíveis da mudança do clima.

Para o GVces, é importante que esse engajamento empresarial se amplie e se aprofunde nos próximos anos, principalmente no contexto dos novos compromissos internacionais de redução de emissões. Nesse sentido, a incorporação da variável climática na gestão corporativa desponta como o caminho para aumentar o engajamento destas organizações.


GESTÃO DE EMISSÕES DE GEE

“Muitos líderes empresariais entendem que, se você quer ter sucesso nos negócios hoje, você precisa ter as mudanças climáticas dentro da sua estratégia global de gestão da sua cadeia de valor e de risco.”
Preeti Srivatav, diretora de estratégia da coalizão empresarial We Mean Business, durante o Evento Anual 2015 do Programa Brasileiro GHG Protocol

O primeiro passo para uma gestão empresarial que incorpore plenamente a mudança do clima em sua estratégia de negócios é a obtenção de informações confiáveis sobre o impacto de suas operações nas emissões globais de GEE, e isso deve ocorrer através da sua mensuração.

O esforço de mensurar as emissões de GEE não é mais o “bicho-de-sete-cabeças” que costumava ser para as empresas até a virada do milênio. A mensuração já faz parte da realidade de organizações em diferentes elos da cadeia de valor, não se restringindo apenas às grandes empresas, mas envolvendo também as de menor porte. Para muitas destas empresas, ações de Mensuração, Relato e Verificação (MRV) são parte da realidade cotidiana, principalmente daquelas submetidas aos Planos Setoriais previstos pela Política Nacional de Mudanças do Clima (PNMC), que compõem um cenário que demandará dessas organizações um esforço de adaptação às exigências de monitoramento, gestão e reduções de suas emissões.

GHG_RegularUm reflexo dessa evolução está na história do Programa Brasileiro GHG Protocol, um projeto do GVces que atua na fronteira da mensuração e do relato corporativo de emissões de GEE no Brasil desde 2008, com o objetivo de difundir a cultura de publicação de inventários de emissões de GEE entre as empresas do país a partir da metodologia GHG Protocol e através de capacitações, do desenvolvimento de métodos e ferramentas de cálculo, e da construção de uma plataforma de registro e publicação de inventários.

Em 2015, o Programa continuou o seu trabalho de capacitação e orientação de gestores e especialistas corporativos no MRV de suas emissões. No ciclo passado, 133 organizações participaram das atividades do Programa, entre empresas, instituições financeiras, instituições de ensino e poder público, que publicaram 313 inventários de emissões de GEE relativos ao ano de 2014 na plataforma digital do Registro Público de Emissões (RPE) – um aumento de 15% no número de inventários publicados em comparação com o ciclo anterior. De acordo com os dados consolidados pelos inventários publicados no RPE, as organizações membros do Programa emitiram em suas operações mais de 71 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e), o que representa aproximadamente 7% das emissões nacionais segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de GEE do Observatório do Clima (excluindo-se as emissões por mudança no uso da terra).

Treinamento de empresas na metodologia do GHG Protocol (foto: Milene Fukuda/GVces)

Treinamento de empresas na metodologia do GHG Protocol (foto: Milene Fukuda/GVces)

Essas organizações representam 17 setores da economia brasileira, sendo que os mais significativos em termos de número de empresas participantes do Programa são os setores de indústria de transformação (35%), atividades financeiras/seguros (10%), eletricidade e gás (9%), atividades profissionais científicas e técnicas (6%), transporte, armazenagem e correio (5%), e construção civil (5%). Do quadro geral de inventários, 93% dos publicados possuem todas as informações sobre emissões diretas e por compra de energia, sendo que 45% foram verificados por terceira parte, recebendo o Selo Ouro do Programa. Todos esses dados foram apresentados durante o Evento Anual do Programa, realizado em agosto de 2015 no Teatro Vivo, em São Paulo.

Além da capacitação e da orientação de organizações no desenvolvimento de seus inventários, o Programa Brasileiro GHG Protocol também avançou em 2015 na agenda da mensuração das emissões associadas ao setor do agronegócio. Através de discussões com as organizações membros, a equipe do GVces realizou uma oficina para apresentar as recomendações sobre a forma como abordar tais fontes de emissão, que não se destinam apenas às indústrias diretamente relacionadas ao agronegócio (como produtores rurais, criadores de gado ou processadores de proteína), mas também a todas as organizações que possuem atividades relacionadas à mudança no uso do solo, como empresas dos setores de construção civil, geração e transmissão de energia, entre outros.

“Considerando o número de organizações que publicam seus inventários no Programa e sua representatividade no quadro nacional de emissões, vemos que esse grupo de empresas é expressivo e tem potencial para mudar o cenário das emissões nacionais.”
George Magalhães, gestor do Programa Brasileiro GHG Protocol, durante o Evento Anual 2015


CICLO DE VIDA E PEGADA DE CARBONO

“A avaliação de ciclo de vida olha para o produto, para os impactos associados a ele ao longo de toda a sua vida útil, desde a obtenção da matéria prima até sua disposição final e pós-consumo. Para isso, precisamos ir além das fronteiras da própria empresa, considerar os impactos do produto ao longo da sua existência mesmo quando ele não estiver mais sob o controle da empresa.”
Ricardo Dinato, pesquisador do GVces, durante a 1ª oficina do ciclo 2015 da CiViA

A cultura dos inventários corporativos ganhou bastante espaço dentro das empresas brasileiras nos últimos anos. Porém, muitas empresas ainda não conseguiram dar o passo seguinte rumo a uma gestão eficiente de suas emissões de GEE: mensurar e quantificar o impacto climático de seus produtos (bens ou serviços) para além das suas fronteiras operacionais, contemplando todo o ciclo de vida de seus produtos.

A Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) desponta como uma ferramenta importante para que as empresas avancem na gestão não apenas de suas emissões, mas de todas as externalidades ambientais associadas a suas operações. A ferramenta de ACV permite quantificar o desempenho ambiental de um produto (bem ou serviço) ao longo de seu ciclo de vida, identificando quantitativamente o uso de recursos naturais e o rejeito e avaliando os impactos ambientais em todas as etapas ao longo da cadeia.

A ideia por trás de um estudo de ACV é mapear e quantificar os impactos ambientais de um produto, a fim de identificar aqueles mais relevantes. Por se tratar de uma ferramenta de gestão com visão sistêmica, o estudo de ACV proporciona ao gestor informações relevantes sobre cada processo pelo qual o produto passa, sendo possível uma gestão mais eficiente e integrada, bem como auxilia na tomada de decisões que minimizem estes impactos.

logo_civia_3 (1)Criada pelo GVces em 2015, a iniciativa Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) busca trazer esse olhar para as empresas brasileiras, auxiliando-as na incorporação do pensamento de ciclo de vida na gestão empresarial, disseminando os conceitos de ACV e sua aplicação no mapeamento e análise de externalidades, e fomentando a quantificação e a gestão dos impactos ambientais de forma sistêmica e transversal.

Em seu primeiro ciclo de atividades, a CiViA direcionou seus esforços em 2015 à mensuração e análise das externalidades climáticas de bens e serviços selecionados por suas empresas membros, por meio de projetos piloto de quantificação de “pegada de carbono”. Isso foi realizado a partir da capacitação das empresas em métodos específicos de mensuração da pegada e da construção coletiva de uma ferramenta de cálculo que permitisse aos membros a quantificação dos impactos climáticos de seus bens e serviços, proporcionando informações confiáveis para embasar a gestão corporativa desses impactos.

“Achei o treinamento da CiViA muito bom, e a equipe do GVces conseguiu passar os fundamentos do ciclo de vida de forma leve, ainda que seja um assunto bem pesado. Para nós, o principal valor que esse treinamento agrega é exatamente passar para as outras empresas parceiras a visão que compartilhamos sobre ACV e pegada de carbono, integrando essa cadeia.”
Daniella Iervolino, da Braskem, durante treinamento realizado pela CiViA em março de 2015

Cada uma das 14 empresas membros teve a oportunidade de desenvolver um projeto piloto e desenvolver um estudo para calcular a pegada de carbono de um bem ou serviço a sua escolha. Ao longo de 2015, foram conduzidos nove projetos piloto nos mais variados setores – alimentos, materiais de base, energia, bens de consumo e serviços. A equipe do GVces apoiou as empresas membros da CiViA no desenvolvimento de seus estudos de pegada de carbono, com a organização de grupos setoriais que se reuniram no decorrer do ano passado para orientar a evolução do trabalho de cada membro. Para as empresas, os estudos de pegada de carbono desenvolvidos pelos projetos piloto da CiViA ofereceram informações novas sobre seus processos e negócios, que podem ajudá-las numa gestão corporativa mais eficiente e sustentável.

(foto: Isabella Fumeiro/GVces)

A CiViA busca auxiliar as empresas na incorporação do pensamento de ciclo de vida na gestão empresarial  (foto: Isabella Fumeiro/GVces)

Além do apoio ao desenvolvimento dos estudos de pegada de carbono, a equipe do GVces na CiViA também olhou para outra questão importante no contexto do ciclo de vida: como aproveitar as informações obtidas pelos estudos de ACV na comunicação da empresa. Durante oficina realizada em agosto, a CiViA convidou especialistas e empresas membros para refletir sobre as relações existentes e as possibilidades que se abrem para a comunicação (interna e externa) no contexto de ACV, tanto nos momentos prévios ao estudo quanto no pós-estudo, com os resultados em mãos.

“Com o projeto piloto, foi possível experimentar e testar novas ideias em prática, testar a viabilidade e construir um material que seja útil e faça sentido no dia-a-dia das empresas. Além disso, o objetivo do piloto também era desenvolver fatores de emissão nacionais e gerar conhecimento que pudesse ser aplicado e replicado em diversos setores da economia.”
Beatriz Kiss, coordenadora da CiViA, durante a 3ª oficina da iniciativa no ciclo 2015

As empresas membros da CiViA recebem capacitação para usar ferramentas para (foto: Milene Fukuda/GVces)

A ACV é uma ferramenta importante para as empresas conhecerem os impactos ambientais associados aos seus produtos e serviços ao longo de seu ciclo de vida (foto: Milene Fukuda/GVces)


EXPERIÊNCIA EM SISTEMA COMÉRCIO DE EMISSÕES

“A precificação do carbono internaliza os custos sociais gerados pelas emissões no sistema de preços. Na prática, ela direciona a demanda dos consumidores para produtos menos carbono intensivos, incentiva fornecedores a adotar processos de produção menos emissões, estimula investidores a optar por projetos com menos emissões, e traz incentivos para a inovação tecnológica.”
Mariana Nicolletti, coordenadora da Plataforma Empresas pelo Clima, durante o Workshop Internacional sobre Mercados de Carbono (setembro/2015)

No enfrentamento da mudança do clima, não existe, atualmente, outra solução efetiva para resolver a questão da concentração de GEE na atmosfera terrestre além da redução imediata e significativa de suas emissões. A mitigação é uma frente crucial no esforço para conter a mudança do clima, e os instrumentos econômicos são importantes armas nessa luta. Tais instrumentos – como taxação e sistema de comércio de emissões de GEE – permitem às economias nacionais reduzir suas emissões, uma vez que o custo do carbono internaliza, nos processos de tomada de decisão, as externalidades das emissões de GEE.

Panelistas no Workshop Internacional sobre Mercados de Carbono (foto: Divulgação KAS)

Panelistas no Workshop Internacional sobre Mercados de Carbono (foto: Divulgação KAS)

Em setembro de 2015, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer (KAS, sigla em alemão) no Brasil, o GVces realizou um workshop internacional que explorou as iniciativas e as possibilidades de precificação de carbono na América Latina. Nos últimos anos, países como Chile avançaram na taxação do carbono como forma de viabilizar reduções de suas emissões para as próximas décadas. No México, por exemplo, a taxa foi estabelecida em 2014, abrangendo 40% das emissões de GEE do país. No mesmo ano, o Chile promulgou uma nova legislação fiscal ambiental que estabeleceu a taxação de emissões, com foco no setor energético.

Esses avanços na taxação do carbono contrastam com as poucas iniciativas de sistema de comércio de emissões na América Latina até o momento. No mundo, lugares como China, União Europeia e o estado norte-americano da Califórnia já desenvolveram iniciativas de mercado de carbono regulado. Em tais sistemas, é estabelecido um teto (cap) global como limite máximo de emissões para o conjunto de participantes, determinando um volume correspondente de permissões para emitir, que são distribuídas ou vendidas para as fontes emissoras.

Se o cenário atual ainda é restrito para sistemas de comércio de emissões na América Latina, o novo contexto global que emerge com os compromissos e metas do Acordo de Paris pode incentivar que iniciativas similares se proliferem em todo o mundo, inclusive no Brasil.

EPC_RegularPara preparar as empresas brasileiras para essa nova realidade regulatória possível, a Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) criou em 2013 o seu Sistema de Comércio de Emissões (SCE EPC), com o objetivo de oferecer a elas uma experiência realista de precificação de carbono, capacitando-as para contribuir com este debate no país.As operações do SCE EPC acontecem uma plataforma online de negociação gerenciada pela Bolsa de Valores Ambiental do Rio de Janeiro (BVRio).

Como em todo sistema de comércio de emissões, um dos objetivos dos participantes do SCE EPC é obter a melhor combinação possível entre resultados financeiros e operacionais, equilibrando a redução de emissões com a aquisição de títulos de permissão de emissão. Assim, a meta dos participantes é cobrir cada tonelada de dióxido de carbono equivalente (tCO2q) com títulos disponíveis no SCE EPC (permissões e offsets) e obter o menor custo por tCO2e no final do período.

Em seu segundo ciclo de atividades, o SCE EPC contou com a participação de 23 empresas de grande porte do Brasil, com um cap global definido em 31,8 milhões de tCO2e, conforme as emissões de Escopo 1 dos participantes no ano de referência de 2013. Este cap representou o limite de permissões de emissões que foram inseridas no mercado ao longo do ciclo, com uma meta de redução de 12% com relação a 2013. Este cap representa aproximadamente 3% das emissões nacionais em 2014, sem considerar as emissões de mudança do uso do solo.

Além disso, com o objetivo de tornar a experiência mais real e fortalecer o aprendizado, novos elementos foram adotados para o ciclo 2015 do SCE EPC, como mercado futuro e banking (poupança de permissões).

Os resultados do primeiro semestre de funcionamento do SCE EPC em 2015 foram sintetizados em um relatório analítico, publicado pela EPC em outubro do ano passado. O relatório final do SCE EPC 2015 será lançado em agosto, quando serão pulicados os dados de emissão de 2015 pelo Programa Brasileiro GHG Protocol.

“O SCE EPC nos oferece um ambiente criativo para debater possibilidades de redução de emissões e para contribuir com proposições para um possível mercado nacional ou regional. Essa experiência nos auxilia na preparação de cenários futuros, na redução de risco, no aprimoramento da gestão de emissões dentro da empresa, no planejamento estratégico, no incentivo a outras empresas na nossa cadeia de valor, além de incentivar a inovação e melhorar a percepção da nossa marca junto aos públicos de interesse.”
João Carlos Redondo, da Duratex, durante o evento “Café com Sustentabilidade”, realizado pela Febraban em setembro de 2015

Mariana Nicolletti, gestora da Plataforma Empresas pelo Clima, durante evento "Café com Sustentabilidade", realizado pela FEBRABAN (foto: divulgação FEBRABAN)

Mariana Nicolletti, gestora da Plataforma Empresas pelo Clima, fala sobre o SCE EPC durante o evento “Café com Sustentabilidade”, realizado pela FEBRABAN (foto: divulgação FEBRABAN)


ADAPTAÇÃO À MUDANÇA DO CLIMA NA GESTÃO ESTRATÉGICA E NOS NEGÓCIOS DA EMPRESA

“Muitas empresas já enxergam adaptação como estratégico porque seus negócios estão expostos aos impactos correntes da mudança do clima. Essas pressões já acontecem, e isso exige ação da empresa.” 
Natalia Lutti, pesquisadora do GVces e gestora da iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), durante o evento de lançamento do Ciclo e da Ferramenta para Elaboração de Agendas Empresariais de Adaptação às Mudanças do Clima (setembro/2015)

O 5º relatório de avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudança do Clima (IPCC, sigla em inglês), publicado em 2014, foi taxativo: as alterações climáticas já fazem parte de nossa realidade. Por isso, não basta mais atuar apenas na redução de emissões de GEE (mitigação) – precisamos nos preparar para enfrentar as primeiras consequências negativas desse processo climático. Ou seja, os esforços de mitigação precisam ser combinados com medidas de adaptação que aumentem a resiliência de comunidades e economias às intempéries climáticas que tendem a ficar mais frequentes e/ou intensas com as mudanças do clima.

O setor empresarial já busca caminhos para viabilizar seus negócios no futuro, ao mesmo tempo em que interage com a sociedade civil e os governos na construção dessa resiliência climática. No Brasil, a Plataforma EPC é uma das pioneiras na reflexão sobre o tema de adaptação no âmbito empresarial e, desde 2014, vem desenvolvendo atividades e ferramentas que facilitem o processo de definição de estratégias de adaptação dentro do ambiente corporativo.

Inspirados pela urgência do tema e pelo contexto da conclusão das negociações do Acordo de Paris, a EPC reúne suas empresas membros para discutir e implementar ferramentas e processos de gestão que facilitem a construção de estratégias empresariais de adaptação e sua internalização nos negócios, produtos e serviços destas empresas.

Em 2014, com apoio da agência alemã GIZ e da KAS, a EPC desenvolveu o Ciclo para Elaboração de Estratégias Empresariais de Adaptação às Mudanças do Clima e a Ferramenta que auxilia na implementação desse ciclo. Estes produtos foram melhorados no decorrer de 2015 a partir de feedback de empresas e parceiros, no contexto do projeto Adaptação à Mudança do Clima na Economia Brasileira, que contou com a participação do Ministério do Meio Ambiente e da UKCIP/Universidade de Oxford, e com o apoio da Embaixada do Reino Unido no Brasil.

Carlos Klink, ex-secretário de Mudança do Clima e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, durante evento de lançamento da Ferramenta (foto: Milene Fukuda/GVces)

Carlos Klink, ex-secretário de Mudança do Clima e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, durante evento de lançamento do Ciclo e da Ferramenta para Adaptação (foto: Milene Fukuda/GVces)

Entre 2014 e 2015, algumas empresas membros da EPC conduziram projetos piloto de aplicação e implementação do Ciclo e da Ferramenta – Braskem, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Grupo Boticário, Grupo CCR, e Suzano Papel e Celulose. Para as empresas, os projetos serviram para destacar a importância de internalizar adaptação à estratégia e aos negócios da organização.

“Os custos dos impactos causados pela mudança do clima são muito maiores do que os custos das medidas propostas pelo plano definido. Essa ferramenta é muito importante para comunicar isso a alta gestão da empresa.” 
Henrique Alonso Anadan, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), durante o evento de lançamento do Ciclo e da Ferramenta para Elaboração de Agendas Empresariais de Adaptação às Mudanças do Clima

As novas versões do Ciclo e da Ferramenta foram apresentadas durante um evento especial realizado na FGV-SP, com a participação de representantes do MMA, da Universidade de Oxford, da Embaixada Britânica e de empresas responsáveis pelos projetos piloto de aplicação, junto com um toolkit para apoiar as empresas no engajamento de públicos estratégicos para a construção dessa agenda de adaptação. Outro produto apresentado durante o evento foi uma publicação online, que reúne conceitos e referências importantes para adaptação à mudança do clima e o setor empresarial.

Ainda em 2015, outras três empresas, Amaggi, Copel e CSN (com expansão do escopo adotado anteriormente) iniciaram o desenvolvimento de suas estratégias de adaptação utilizando as novas versões do Ciclo e da Ferramenta de Adaptação.

“Nosso desafio é pegar esta estratégia de adaptação e levá-la para a parte operacional da empresa, para o dia-a-dia dela. Por isso, é crucial o engajamento interno, trabalhar esse tema com os nossos funcionários para que possamos internalizar a estratégia de adaptação na operação da concessionária.” 
Livia Friseira, Grupo CCR, durante o evento de lançamento do Ciclo e da Ferramenta para Elaboração de Agendas Empresariais de Adaptação às Mudanças do Clima

Representantes de empresas falam sobre seus pilotos de aplicação do Ciclo e da Ferramenta de Adaptação durante evento de lançamento (foto: Milene Fukuda/GVces)

Representantes de empresas falam sobre seus pilotos de aplicação do Ciclo e da Ferramenta de Adaptação durante evento de lançamento (foto: Milene Fukuda/GVces)


PARA O FUTURO: As empresas na linha de frente na construção de uma nova economia

Em meio a um cenário econômico problemático, as empresas brasileiras enfrentam um desafio extra no esforço de engajamento na luta contra a mudança do clima. Isso porque, em tempos de queda na produção industrial, aumento do desemprego, inflação e juros em alta, câmbio desvalorizado e perspectivas pouco otimistas para o curto e médio prazo, a questão climática tende a ser relativizada em favor de preocupações econômicas imediatas. Assim, surge um dilema: como realizar os investimentos necessários para a transição para uma economia de baixo carbono em um momento tão delicado da vida econômica brasileira? Vale a pena apostar nessa nova economia, olhando para o longo prazo, no momento em que as atenções estão direcionadas para problemas econômicos emergenciais?

Geralmente, momentos de crise propiciam um comportamento mais conservador por parte das empresas, o que pode resultar no retardamento de medidas de mudança de tecnologias e práticas. No entanto, num mundo cada vez mais assolado pelos efeitos das mudanças do clima, retardar a transição para o baixo carbono pode resultar em um custo bastante alto no futuro. Mas, como diz o ditado, o momento de crise também é o momento da oportunidade.

Em muitos setores econômicos, a transição para o baixo carbono pode ser uma estratégia alinhada à própria contenção de despesas, no sentido de aumentar a eficiência de processos, aperfeiçoar produtos e serviços e reduzir seus custos, e também ao ganho de competitividade, por meio de produtos de baixa intensidade carbônica, novos produtos ou soluções para novas demandas. Aos poucos, as empresas deixam de enxergar o desafio climático apenas pelo espectro do risco, mas também como uma janela de oportunidade para retomar a atividade econômica e contribuir para a recuperação da economia brasileira a partir do baixo carbono.

O GVces acredita nisto e trabalha intensamente para que o setor empresarial brasileiro também desenvolva essa leitura e se torne um protagonista na luta contra a mudança do clima, atuando de forma concertada com o poder público e a sociedade civil na redução de nossas emissões de GEE e na adaptação da infraestrutura e da economia do Brasil aos efeitos já irreversíveis deste novo cenário climático.

Uma frente importante de atuação do GVces na questão climática em 2016 está no SCE EPC, iniciativa pioneira na América Latina que simula com as empresas participantes um sistema de comércio de emissões.  Neste ano, além da operacionalização do 3º ciclo de atividades doSimulado, a EPC pretende avançar em outros dois pontos.

Primeiro, a partir da experiência de construção e simulação do SCE EPC desde 2013 e de reuniões realizadas ao longo do ciclo 2016, a EPC pretende desenvolver um relatório com propostas para um sistema de comércio de emissões no Brasil. E segundo, a EPC também visa construir diretrizes empresariais para precificação interna do carbono nas empresas; assim, as empresas passarão a considerar um preço interno para suas emissões, tanto para avaliação de risco quanto para oportunidade de negócios.

Outra frente relevante para o trabalho do GVces em clima voltado para o setor privado está no apoio ao desenvolvimento de agendas estratégicas de adaptação às mudanças do clima. Além disso, no primeiro semestre de 2016, ainda como parte do projeto Adaptação à Mudança do Clima na Economia Brasileira, foram apresentados o Ciclo e a Ferramenta para Planejamento em Adaptação por organizações da sociedade civil.

No entanto, a principal iniciativa do GVces no tema de adaptação em 2016 é a agenda integrada das Iniciativas Empresariais em torno do tema da gestão de recursos hídricos. Da parte da EPC, devem ser desenvolvidos projetos piloto de adaptação com foco na gestão dos riscos e oportunidades climáticas atreladas à água. Da parte da CiViA, além do apoio ao desenvolvimento de estudos de pegada de carbono, as empresas membros estarão capacitadas e orientadas para a realização de estudos de pegada hídrica, um indicador que estima o volume consumido de água para a geração de determinado bem ou produto e os impactos potenciais desse consumo na disponibilidade atual e futura de recursos hídricos.

Finalmente, a capacitação de empresas para elaboração de inventários de emissões de GEE continua com o Programa Brasileiro GHG Protocol. Além da adoção das diretrizes para mensuração de emissões associadas ao agronegócio, o Programa Brasileiro também avança em 2016 no aperfeiçoamento do Registro Público de Emissões, a maior base pública de inventários de GEE da América do Sul. Sintonizada com os objetivos sinalizados pelo Acordo de Paris, a nova versão do Registro está preparada para uma possível a integração de dados de emissões empresariais com futuros sistemas de plataformas mandatórias ou voluntárias, de modo que as empresas participantes ganhem eficiência no relato e comunicação dessas informações.

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