Depois de Paris, sinais de um novo tempo para as finanças climáticas

Por Annelise Vendramini, Fernanda Rocha e Paula Peirão*

Christiana Figueres, secretária executiva da UNFCCC, e Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, durante entrevista coletiva na Conferência do Clima de Paris, a COP 21 (foto: Bruno Toledo/Página22)

Christiana Figueres, então secretária executiva da UNFCCC, e Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, durante entrevista coletiva na Conferência do Clima de Paris, a COP 21 (foto: Bruno Toledo/Página22)

Mark Carney, presidente do Banco Central da Inglaterra, disse em seu discurso na COP 21 que a mudança do clima é “o” tema para o futuro do setor financeiro. Anunciou também que Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova Iorque e empresário do setor de mídia, vai chefiar uma força tarefa no Financial Stability Board (FSB) criada para aumentar a transparência no relato das empresas sobre riscos climáticos, com o objetivo de assegurar que os investidores possam avaliar o risco climático de seus negócios. O FSB é uma organização internacional sediada em Basileia, na Suíça, dedicada à estabilidade do setor financeiro global. Participam do FSB bancos centrais, supervisores, reguladores e bancos internacionais de centros financeiros importantes.

Mais do que um momento isolado da COP21, o discurso de Mark Carney foi ilustrativo da importância que as mudanças climáticas têm adquirido para o setor financeiro. A Conferência do Clima em Paris foi um encontro marcante para a comunidade financeira: cerca de 500 investidores estiveram presentes representando mais de US$ 25 trilhões em ativos sob gestão. O foco das discussões girou em torno do compromisso de mensurar, reportar e diminuir a pegada de carbono[1] dos portfólios de investimentos. O carbono tornou-se, definitivamente, uma importante variável nas análises de risco e retorno.

Novos mecanismos financeiros são necessários para atingir as metas de redução de emissões acordadas na COP21, sendo que, dentre eles, os Green Bonds foram muito mencionados durante a Conferência. Este mecanismo, que inicialmente foi mais utilizado por governos e bancos de desenvolvimento, agora tem despontado como uma alternativa também ao setor corporativo. No ano de 2014, foram emitidos mais de 41 bilhões de dólares em Green Bonds. No entanto, ainda existe oportunidade para uma grande expansão. De acordo com o Green Bond Principles, que conta com o apoio da Associação Internacional do Mercado de Capitais (ICMA)[2], o montante de recursos emitidos em Green Bonds ainda é muito pequeno em relação ao mercado de dívida global, que emite em média 19 trilhões de dólares por ano.  Para isso, o Climate Bonds Initiative – que reúne 34 organizações incluindo Rabobank e Credit Suisse – lançou diretrizes setoriais desse tipo de financiamento para uma série de setores, como agricultura, floresta e água[3].  A COP21 também foi palco do lançamento da Green Infrastructure Investment Coalition, que propõe engajamento entre governos, instituições financeiras, investidores e especialistas para fomentar o crescimento do mercado de Green Bonds no mundo. A coalizão tem como seus principais organizadores o Climate Bonds Initiative, PRI, UNEP, Inquiry for a Sustainable Development e ICMIF, International Cooperative Mutual Insurers Federation. Alguns países, tais como México, Índia e Indonésia, já demonstraram interesse em se juntar à coalizão.

Do ponto de vista do risco, os investidores, reguladores e agentes financeiros em geral buscam mecanismos para reduzir sua exposição ao carbono. Por exemplo, a iniciativa Portfolio Decarbonization Coalition[4], lançada em 2014 pela UNEP-FI, CDP, AP4 e Amundi tem a ambição justamente de mensurar e divulgar informações sobre a pegada de carbono dos investimentos. Os investidores institucionais associados firmam o compromisso de “limpar” seus portfolios, progressivamente realocando seus investimentos em atividades menos carbono intensivas. Na COP21, a iniciativa ganhou força, contando com membros que representam cerca de US$600 bilhões de ativos sob gestão. De forma complementar, o Montreal Carbon Pledge – iniciativa do PRI iniciada em 2014 – também já havia mobilizado, globalmente, 120 investidores responsáveis por mais de US$10 trilhões de dólares de ativos sob gestão. Entre eles estão investidores de peso como PGGM, Calpers e Calvert[5]. Para se adequarem a estas estratégias, os investidores podem, por exemplo, transferir seus investimentos para companhias mais verdes, limitar seus investimentos em companhias “marrons”, ou até realizar uma estratégia de engajamento ativo para promover o investimento em tecnologia limpa e P&D. Para auxiliar nesse processo, os organizadores da iniciativa Portfolio Decarbonization Coalition oferecem gratuitamente a possibilidade de fazer esse alinhamento para carteiras de diferentes investidores até o final de 2016, além de fornecer algumas análises com cenários de stress.

Esse movimento está em linha com novas regulamentações que têm surgido na Europa. Por exemplo, o artigo 173-VI da lei francesa sobre transição de energia, divulgada no dia 22 de julho de 2015, que demanda que fundos de pensão divulguem, a partir de 2016, a exposição de seus investimentos a riscos climáticos (incluindo emissões financiadas) e a contribuição de sua estratégia para as metas de descarbonização[6].

Para auxiliar no processo, já existem algumas metodologias e ferramentas de cálculo para mensurar as emissões de GEE de um portfólio de investimento. Um exemplo apresentado na COP21 foi a ferramenta Sustainable Energy Investment Metrics, desenvolvida pela ONG 2 Degrees Investing,  que busca fazer a comparação entre a pegada de carbono das emissões financiadas da carteira de investimentos e a pegada de carbono que seria ideal para manter o aquecimento global abaixo dos 2°C. A metodologia compara os investimentos em energia e tecnologia com os dados de alinhamento aos 2°C da Agência Internacional de Energia (IEA). No entanto, até o momento, nem todos os setores são contemplados. A ferramenta será expandida para outros setores nos próximos anos, assim como outras categorias de investimento, como, por exemplo, renda fixa.

O setor financeiro brasileiro também esteve presente na COP21 por meio da FEBRABAN, pela primeira vez presente na conferência, representando todos seus associados. Em particular, o Brasil se destaca nas discussões em sustentabilidade, clima e finanças por meio da atuação do Banco Central do Brasil e da FEBRABAN que têm contribuído para que o tema avance no Brasil. E o país também está presente em alguns fóruns internacionais relevantes para avanço dessa agenda: a ANBIMA compõe a força tarefa liderada por Michael Bloomberg; a FEBRABAN está no assento do conselho de uma força tarefa da ONU para o avanço da economia verde para o setor financeiro; o Banco Central e o Ministério da Fazenda também fazem parte de um grupo criado no âmbito do G20, que tem liderança da China, para avançar a economia verde mundialmente.

Os próximos anos serão fortemente influenciados pelos resultados da COP21. Uma série de compromissos ligados à destinação de recursos financeiros para investimentos resilientes às mudanças climáticas até 2020 foram feitos por países como, por exemplo, Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Noruega, Finlândia, França, Inglaterra e por agências multilaterais como os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia, da Europa e o IADB, entre outros. O montante de recursos compromissados com a agenda climática até 2020 é US$ 100 bilhões, mas já há indicações de novos montantes a serem definidos até 2025.

Uma importante mensagem que se pode tirar das discussões na COP21 é que um olhar estratégico para as finanças climáticas se faz prioritário nas agendas públicas e privadas no Brasil. O capital natural tem grande relevância para a economia brasileira e o Brasil tem contribuições positivas a dar na redução de gases de efeito estufa. Assim, tanto bancos como investidores estão e deverão estar cada vez mais atentos a oportunidades e riscos climáticos associados aos seus recursos investidos. Entre outras razões, para atender a demandas de seus órgãos supervisores. E às empresas caberá responder, cada vez mais frequentemente, perguntas sobre como gerem seus riscos climáticos. Veremos nos próximos dez anos um novo tempo para as finanças climáticas.

* Fernanda Rocha e Paula Peirão são pesquisadoras e Annelise Vendramini é coordenadora do programa Finanças Sustentáveis do GVces

 

[1] Diz respeito à quantidade total de gases de efeito estufa emitidos, direta ou indiretamente, por determinada atividade, evento, produto ou indivíduo.

[2] http://www.icmagroup.org/assets/documents/Regulatory/Green-Bonds/GBP_2015_27-March.pdf

[3] http://www.climatebonds.net/standards

[4] http://unepfi.org/pdc/

[5] Mais informações sobre iniciativas de investidores institucionais e mudanças do clima podem ser encontradas na plataforma de investidores sobre clima no http://investorsonclimatechange.org.

[6] Climate Strategies and metrics: Exploring options for institutional investors, 2015. 2 degrees investment Initiative, WRI, UNEP-FI. E DECREE IMPLEMENTING ARTICLE 173-VI OF THE FRENCH LAW FOR THE ENERGY TRANSITION: CHALLENGES AND FIRST RECOMMENDATIONS, 2015 .2 Degrees investment initiative.

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